sábado, 1 de maio de 2010

Olho Mágico

Antigamente eu não lá era uma grande amiga da minha porta.
Era um relacionamento conturbado, não muito sincero e baseado em 3 suspiros não tão esclarecedores.
Suspirava primeiro por um suposto conforto que me era necessário sentir.
Depois, pelo sorriso que estamparia meus traços, mesmo que este não fosse o mais verdadeiro dos sorrisos.
Chegando na terceira e pior delas, eu suspirava por minha sanidade, porque era de costume a porta me trazer visita quando eu menos precisava de amor. Afinal, quem precisa disso quando se é auto-suficiente e sozinha que nem eu?
Mas era ele que estava com os dedos em minha campainha, esperando o momento certeiro para um boicote de mestre, igualzinho a uma cobra Naja. O amor.
Que nem ela, a peçonhenta da Naja, de vez em quando eu o escutava dançar a passos leves uma melodia imaginária de flautas. E isso absolutamente acabava comigo... era perfeito demais pra que fosse real.
Meus braços e pernas vinham a semanas, meses!, sendo puxados como um ímã para perto da porta. E eu queria abri-la. Precisava abri-la. E ainda por cima, ERA REAL!
Então aconteceu da minha mente, corpo, porta e os benditos 3 suspiros me pseudo-dominarem em uma conspiração muito da bem sucedida, diga-se de passagem. Deixei os mantras, valores, cadeados e chaves perto do olho mágico para finalmente admirar com segurança aquilo que estive perdendo. E te digo que aconteceu tão rápido que eu mal aproveitei a superfície gelada da maçaneta sobre os meus dedos quentes, a muito tempo encarcerados.
Eu não olhei no olho mágico.
E naquele instante eu quis voltar atrás, me algemar no parapeito da janela e definhar até minha pobre morte. Pior que isso, eu consegui me ver no reflexo daqueles malditos olhos.
Eram eles lá, por trás da minha branca estúpida porta, e até Indiana Jones não encontraria plano B para esse infeliz momento. Eu já estava enlouquecida... e o veneno nem efeito tinha feito.
As roldanas na minha cabeça começaram a girar em sintonia com minha imaginária manivela, e bons frutos dali saíram, eu sei. Antes tarde do que nunca percebi que ao olhar pelo olho mágico a gente escolhe quem queremos ser ao abrir a porta. E não me restara alternativa a ser ‘’só eu’’, e ‘’só eu’’ nunca me pareceu proteção suficiente, ainda mais quando eu precisava de uma Hiroshima-Nagasaki da proteção. Eu precisava mesmo era que meu coração voltasse a bater.
Bom, pedi que entrasse.
Que se sentasse.
E que falasse. O que quer que o tenha feito vir me causar distúrbios.
E não, não pedi que me amasse pois sobre isso já não havia mais esperanças.
Escutei palavras surdas e mudas, completamente fora do meu padrão de compreensão. Acompanhei atônita muitas vezes o movimento de sua boca, mas não sei reproduzir as mentiras que dali saíram. Comecei seriamente a duvidar se algum dia por inteiro eu realmente, sincera e verdadeiramente, acreditei, compreendi, e principalmente entendi alguma sílaba daquela mesma conversa. E muito antes dele começar a pensar em parar, de repente, tudo ficou muito claro como névoa: Ele nunca fora o que eu achei que fosse.
E por mais tempo que me custou chegar a essa conclusão, tive uma imensa necessidade de rir da situação, coisa que eu não fazia a muito tempo por simplesmente não achar nenhuma graça no que a vida vinha fazendo comigo.
Tudo isso com certeza tirou o melhor de mim.

Mas eu ri, ri com vontade, tipo deboche mesmo, daquelas risadas se um pingo de vergonha na cara mas que tirou o peso das minhas costas. Ri da minha ingenuidade tão absurda, que mais do que nunca me pareceu certeira em seu objetivo: Me deu a mais dolorosa das lições, mas valeu a pena. E depois disso eu não conseguia mais escutar nem por um mísero segundo aquelas mentiras porcamente planejadas, ou fingiria ser capaz de evitá-las. EU SEI que não estava tatuado na minha testa ‘’o que os olhos não vêem o coração não sente. ’’ Porque eu não olhei no olho mágico, mas meu coração sentiu.
Suas mãos estavam em meus braços quando perguntou:
- O que houve?
- Comigo? – retruquei.
- É, com você. Com quem mais seria?
- Não... comigo não houve nada. - encerrei
Ele ficou lá, me encarando, e deu um sorriso pequeno como quem tem a dizer. As mãos saíram de meus braços e percorreram alguns centímetros até a minha nuca. Lá, ela ficou.
Aos poucos eu estava cada vez mais perto sem nem me dar conta de quanto tempo tinha passado desde sua última frase.
O calor dos 5 dedos ficou mais forte e ele me beijou. Tinha até gosto de coisa boa, de coisa nova, mas não me lembro de ter gostado. Não me lembro nem de como cheguei até ali, até aquele ponto. E não me lembro de ter sentido aquela sensação de transe que o olho, que era incrivelmente dourado por si só, me passava quando estava aberto. Vai ver porque estava fechado.
Mas não me lembro, mesmo.
E depois, a única coisa que não me esqueço foi de não ter olhado no olho mágico. E de não ter suspirado pelo conforto, sorriso e sanidade. Talvez eu nem tivesse aberto a porta se eu soubesse que perderia a vontade de ter comigo o dono dos olhos, mesmo que abertos ou até mesmo fechados.
Já não os quero por aqui.
Não quero precisar suspirar, planejar ou proteger. Quero ser ‘’só eu’’, ‘’auto-suficiente sozinha’’, pra que um dia eu possa achar um par de olhos absolutamente perfeitos e os quais eu não tema, não me apavore.
Porque sabe, hoje eu conto depois de tanto ter se passado, mas se de uma coisa eu lembro, o dono dos dourados nem olhou pelo meu olho mágico, mas infelizmente escolheu a pessoa errada para ser.

Um comentário:

  1. incrível como eu sempre acho um pouquinho de mim nos teus textos e dos poucos teus que eu já li, acho que esse é o meu preferido.

    ainda acho que voce deveria tornar esses seus textos por aí mais frequentes, porque eles são deeeemás.

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